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Os indícios da utilização da metodologia da “Cambridge Analytica” na campanha de Jair Bolsonaro

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Reprodução/Fernando Frazão - Agência Brasil

(Por Carta Capital)

A campanha do candidato à presidência da extrema-direita, Jair Bolsonaro (PSL), evidenciou contornos de uma verdadeira guerrilha virtual. O Ministério Público está promovendo uma investigação para saber se existe um “esquema industrial” e pago para a difusão de notícias falsas pela internet, as famigeradas fake news, o que se constitui em um crime eleitoral. A Folha de São Paulo publicou uma matéria na qual informou que um conjunto de empresários pró-Bolsonaro pagaram uma soma de até 12 milhões de reais para divulgar fake news contra o PT através do Whatsapp, o que igualmente se caracteriza como crime, pois neste ano de 2018 está expressamente proibido o financiamento de candidatos feito por empresas. As doações só podem ser feitas por pessoas físicas.

Reprodução/Fernando Frazão – Agência Brasil

Há suspeitas de que essa prática tem acontecido há um bom tempo e que poderia estar por trás da subida repentina de Bolsonaro e o aumento da rejeição de Haddad na última semana antes do primeiro turno das eleições.

No dia 25 de setembro, o Facebook efetuou um anúncio de que havia sido hackeado. No dia 12 de outubro, o Facebook informou que a invasão teve um início na data provável de 14 de setembro. Foram “roubados” os dados de 400 mil usuários e, a partir do “roubo” desses dados, os hackers conseguiram  angariar informações a respeito de 30 milhões de pessoas.

No escopo das vítimas, desses 30 milhões, 29 milhões tiveram descobertos o seu número de telefone e o seu e-mail. De metade dessas pessoas, os hackers acabaram descobrindo também: o nome da pessoa, qual o gênero sexual, idioma, o estado civil, qual religião a pessoa professa, qual seria sua cidade natal, qual a data de nascimento e também as 15 últimas pesquisas feitas na internet.

A equipe da Carta Capital questiona se existe alguma relação entre o hackeamento de usuários do Facebook e o que eles chamam de guerrilha digital de Bolsonaro.

A campanha eleitoral do deputado repete estratégias verbais e operacionais do presidente estadunidense Donald Trump na disputa pela presidência americana em 2016. Um dos filhos de Jair Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, esteve no mês de agosto, em Nova York, com aquele que foi o principal estrategista de Donald Trump na campanha presidencial,  Steve Bannon.

O principal meio utilizado para a divulgação das mensagens políticas de Steve Bannon alcançarem os eleitores e influenciá-los dependia do “roubo” de dados do Facebook. Uma operação por intermédio da Cambridge Analytica (CA), um escândalo que se tornou público na imprensa de todo o planeta em março passado.

A Cambridge Analytica foi construída em 2014 por um bilionário norte-americano, Robert Mercer, com o intuito de ajudar políticos conservadores nos Estados Unidos. Um dos colaboradores da companhia, Cristopher Wylie, foi quem forneceu a resposta sobre como influenciar da maneira mais poderosa os eleitores americanos.

De acordo com Wylie, era preciso montar um perfil psicológico dos eleitores, e a fonte mais apropriada para isso era justamente o Facebook. Ele tinha ciência de que na Universidade de Cambridge, na Inglaterra, havia pesquisas psicossociais feitas baseando-se no comportamento das pessoas na referida rede social.

Um dos pesquisadores, Aleksandr Kogan, aceitou a proposta de elaborar um aplicativo de celular e pagar pessoas para poder testá-lo. A utilização do aplicativo deu a Kogan a oportunidade de “roubar” dados privados de cerca de 280 mil usuários do Facebook e, com base nessas pessoas, elaborar um banco de dados “psicológico” a respeito de 50 milhões de pessoas. Ele ganhou 1 milhão de reais pelo serviço, uma mixaria em comparação com o valor político do seu “produto”.

E no que o Brasil se encaixa nesse cenário? A Cambridge Analytica chegou em solo brasileiro em 2017. Realizou uma parceria com um publicitário baiano chamado André Torretta, da Ponte Estratégia, e a partir disso nasceu a CA Ponte. Durante as entrevistas, Torretta falou que teria de montar um banco de dados, pois não existia uma base brasileira construída a partir do Facebook. A equipe de Jair Bolsonaro sondou a CA Ponte para poder trabalhar pelo deputado, porém Torretta se posicionou contrário a isso.

Quando bombou na mídia o escândalo mundial da Cambridge Analytica, no mês de março desse ano, o Ministério Público brasileiro abriu um inquérito sobre a CA Ponte e convocou Torretta para prestar depoimento. O MP queria descobrir a respeito do banco de dados da empresa. A investigação até o momento acontece sob sigilo.

A Carta Capital questiona se esse hackeamento oficialmente informado pelo Facebook em setembro foi realizado para a elaboração de um banco psicossocial de dados para utilização em favor de Bolsonaro. A equipe da CartaCapital  perguntou ao Facebook a respeito da nacionalidade das vítimas dos hackers, porém a empresa se recusou a informar. Falou somente que colabora com o FBI, a Polícia Federal dos EUA, na investigação do caso. É  sabido, no entanto, que há muitos brasileiros entre as pessoas atingidas.

O hackeamento ocorreu entre os dias 14 e 25 de setembro. O crescimento de Bolsonaro nas pesquisas evidencia que ele mudou de patamar após esse ocorrido.

No Ibope, a nível de exemplo, ele girou em torno de 28% entre 11 e 26 de setembro. A partir do dia 1o de outubro, a coisa mudou de figura. Superou a marca dos 30%, atingindo 31%

Porém não foi apenas isso. Enquanto Jair Bolsonaro crescia nas pesquisas, a rejeição de Haddad sofria o mesmo. O candidato do PT havia entrado oficialmente na campanha em 11 de setembro, data na qual o PT o substituiu na Justiça eleitoral como sendo o candidato no lugar de Lula.

Dos dias 11 a 26 de setembro, a rejeição a Haddad balançava entre 23 e 27%. A partir do dia 1o de outubro, o patamar se alterou:beirou os 38%.

Na época em que Bolsonaro alterou seu patamar nas pesquisas e a rejeição a Haddad também, aconteceu as manifestações #elenão. Isso ocorreu no dia 29 de setembro. Elas podem ter sido revertidas a favor do presidenciável do PSL, porém talvez uma operação na Internet com dados do Facebook possa ter dado um empurrão.

Haddad já falou publicamente que sua imagem foi manchada por uma campanha de cunho difamatório, alimentada por mentiras, oriunda de parte das equipes de Bolsonaro. Nos grupos de Whatsapp e no Facebook, foram divulgadas uma série de mensagens que mostravam o candidato petista como uma espécie de depravado anticristão, daí a aversão dos evangélicos por ele ter subido bastante e rapidamente.

No dia 4 de outubro, três dias antes do pleito do primeiro turno da eleição daqui, uma empresa estadunidense de cibersegurança, a FireEye, parceira do governo dos Estados Unidos na investigação de ameaças aos EUA, informou à Folha de São Paulo que havia hackers causar interferência na eleição brasileira. Seria por meio das redes sociais e da manipulação dos medos das pessoas.

Essa estratégia foi a mesma que a Cambridge Analytica efetuou na eleição de Donald Trump. Quem falou isso foi Christopher Wylie, o responsável por ajudar a armar a guerrilha pró-Trumo com a elaboração de um banco psicossocial de dados.

“Nós exploramos o Facebook para colher milhões de perfis de pessoas. E construímos modelos para explorar o que sabíamos sobre eles e direcionar seus demônios interiores. Essa foi a base em que toda a empresa (Cambridge Analytica) foi construída”, falou Wylie no jornal britânico The Guardian de 17 de março desse ano,

A atuação da Cambridge Analytica na eleição norte-americana de 2016 tem sido investigada nos EUA. O ponto de partida das investigações é se teria ocorrido interferência de um governo estrangeiro, nesse caso o russo.

 

Danieli Mennitti
Possuo graduação e mestrado em História pela UNESP. Faço parte da equipe de redação do portal Resumo. Além de professora e historiadora, sou redatora web freelancer/autônoma. Interesso-me e escrevo sobre os mais variados assuntos.

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