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Crítica: A Freira (2018)

O mercado dos filmes de terror já estava bastante saturado, com filmes requentando velhas fórmulas batidas. Com a criação do universo de Invocação do Mal, foram trazidos alguns elementos novos, que fizeram dele um sucesso de crítica e de público. Em a Invocação do Mal 2, um personagem inesperadamente chamou a atenção do público que passou a nutrir um curioso interesse por ela: uma freira, que recebeu o nome de Valak.

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O sucesso da personagem, a priori meramente acessória, foi tanto que ela ganhou um filme só dela, que estreou nessa quinta-feira, dia 6 de setembro: A Freira (The Nun).

A Freira funciona como uma espécie de “filme de origem”, ou seja, um filme para narrar mais detalhadamente a história do demônio Valak, que toma a aparência de freira.

Um primeiro ponto vai para a ambientação e construção do cenário. O filme, mais do que o habitual, é todo escuro, com muitos tons de preto e cinza. A arquitetura envelhecida, quase em um tom medievalizado, com ruínas e uma dose cavalar de rusticidade, aliado a efeito de sons bem elaborados, trouxeram um ar todo soturno ao filme.

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Um dos maiores trunfos dessa obra cinematográfica é na construção do clima, da atmosfera, profundamente sombria, obscura, pesada, densa.

É inegável que o filme contém suspense o tempo todo, fazendo assim também com que a sensação de medo e tensão provocada sejam uma verdadeira constante.

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O filme contém, sim, alguns velhos clichês muito comuns em obras do gênero: jumpscares, o uso da técnica da diminuição do som ambiente e toda a preparação para os susto, incluindo aí, por exemplo, a tática de aparecer rapidamente e “sutilmente” um pouquinho da assombração, como um vulto e isso ir crescendo até a sua aparição por completo.

Mas isso acaba sendo algo plenamente perdoável. Um dos maiores atributos de A Freira é a sua construção técnica e sua narrativa formidáveis, realmente muito bem feitas, o que faz com que algumas pequenas falhas sejam plenamente perdoáveis.

O enredo do filme consiste no seguinte: tudo começa em 1952, em um convento no interior da Romênia. Duas freiras abrem uma porta com uma chave toda estranha e uma delas sequer sai de lá. Nisso a freira que ficou do lado de fora começa a fugir para fugir da criatura e supostamente comete suicídio.

A fim de investigar o caso, o Vaticano manda um padre que lida com fenômenos paranormais e igualmente uma noviça que está perto de se ordenar freira. Ambos vão ao encontro de um jovem homem franco-canadense, o Frenchie, que entregava verduras no convento e foi o primeiro a encontrar o corpo falecido da freira supostamente suicida.

Aliás, falando-se em Frenchie, o mesmo se constituiu no alívio cômico para o filme. Além disso, seu personagem tem uma utilidade, que foi servir de link não apenas para uma possível sequência de A Freira, mas para a conexão com o universo de Invocação do Mal. O que foi desnecessário foi justamente a aplicação desse alívio cômico que, apesar de ser divertido de fato, foi desnecessário na narrativa, uma interrupção desagradável ao clima soturno.

No que se refere ao padre, a priori tem-se a impressão que ele terá uma importância maior no desenvolvimento da história, algo mais atuante. No entanto, quando as coisas começam a de fato esquentar, ele acaba se tornando acessório, quase dispensável.

Cabe aqui um elogio a atuação da Taissa Farmiga, que fez o papel da noviça, que foi excelente. Ela demonstrou todo o tom que a personagem precisava, mesclando aquele de inocência e pureza, com uma força impressionante.

O filme apresenta algumas referências bíblicas e também referências ao profano, o que parcialmente explica uma parte da mitologia da obra.

O pecado maior de A Freira se encontra na “autoexplicação” do filme. Em um dado momento, o padre, que a princípio não pôde entrar no convento por causa da clausura das freiras, foi ler livros e afins encontrados no túmulo. Essa seria a parte onde se explicaria a mitologia/cosmogonia da história, elucidando elementos como quem é Valak, por que ele assume a figura de uma freira, enfim, a base que fundamenta a história toda.

Contudo, isso aparece muito pouco e ainda assim é mal explicado. Poderiam, por exemplo, ter investimento mais tempo e energia em implementar na narrativa alguns pedaços ou ao menos uma cena estendida com uma explicação maior e melhor sobre a mitologia/cosmogonia da coisa toda.

Entretanto, se isso tivesse sido feito, ele teria sido capaz de superar até mesmo o Invocação do Mal. Além disso, a carência de uma bidimensionalidade dos personagens, sobretudo da assombração Valak, a “estrela” da narrativa, faz muita falta.

A exceção dessas ressalvas quanto a carência de uma explicação satisfatória da mitologia/cosmogonia, A Freira é um ótimo filme de terror, capaz de entreter, prender o telespectador e causar medo.